a entrevista

O repórter Pedro Bial perguntou ao presidente Lula tudo o que o Brasil quer saber.



Exclusivo! A entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Fantástico! O repórter Pedro Bial perguntou ao presidente Lula tudo o que o Brasil quer saber.

Pedro Bial: Presidente, antes e depois da sua eleição, o senhor repetiu várias vezes, com pertinência, que muitos poderiam errar no seu lugar, mas, que com a sua biografia e com os preconceitos que enfrentava, o senhor não poderia errar. Agora, diante de tantos escândalos que o seu governo vem enfrentando, poderia me responder onde é que o senhor errou?

Presidente Lula: Primeiro, Pedro, queria aproveitar esse programa de primeiro de ano e cumprimentar o povo brasileiro, desejando um 2006 melhor do que qualquer ano que ele já imaginou ter. Afinal de contas, acho que o povo brasileiro merece um bom 2006. Segundo, Pedro, é muito difícil você dizer onde errou. Você pode ter errado muitas vezes e pode ter acertado outras vezes. O dado concreto, Pedro, é que nós temos consciência de que governar um país do tamanho do Brasil, com a máquina poderosa que tem, você pode cometer um ou outro erro. E, na medida em que você detecta esse erro, tem que tomar as providências para apurar e punir aqueles que puderam ou aqueles que cometeram o erro. E isso nós fizemos como jamais foi feito na história do Brasil.

Pedro Bial: O senhor está se referindo às CPIs? Para apurar, o governo resistiu muito. Procurou impedir a implantação das CPIs, num primeiro momento. E, mesmo agora há pouco, tentou evitar a prorrogação de seu trabalho.

Presidente Lula: Não. Veja, primeiro, a CPI é uma conquista da democracia brasileira. E o PT, durante muito tempo, se utilizou de CPI para fazer política. Segundo, é normal que quem está na oposição queira mais uma CPI do que quem está na situação. Isso também é histórico no Brasil. E a terceira coisa é que a CPI está funcionando na sua plenitude, sem que houvesse em qualquer momento interferência do governo para criar obstáculo para a CPI. Tudo que eu desejo na vida é que a CPI apure corretamente o que tem que apurar, faça todas as acareações que tiver que fazer, apresente o seu relatório final. O Ministério Público, a partir daí, vai fazer as suas investigações. E aquilo que for para o Poder Judiciário será julgado; aquilo que a Polícia Federal precisar investigar, será investigado. Eu acredito piamente que o Brasil vai, ao longo dos próximos dez, 20 ou 30 anos. Se nós quisermos transformar na grande nação que sonho transformar o Brasil, nós teremos que fazer do combate à corrupção quase que uma profissão de fé, sem trégua, para que a gente possa definitivamente sonhar com o Brasil com menos corrupção ou sem corrupção.

Pedro Bial: O senhor me permite enumerar alguns dados que escandalizaram o país? O PT era meio tido como o partido que monopolizava a ética na política brasileira. E isso, em 2005, foi por terra. O deputado José Genoíno, presidente do partido, disse que não tomou empréstimo. Mas, tomou e caiu. Sílvio Pereira, secretário-geral, caiu. O ex-ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, foi cassado. Esses não são erros?

Presidente Lula: São erros. E tanto são que foram punidos. O Genoíno saiu da presidência do PT; o Silvinho não está mais no PT; o Zé Dirceu perdeu o mandato; o Delúbio saiu do PT. Para mim, a apuração tem que ser feita dentro do meu partido, nos outros partidos, dentro da sociedade, naqueles que são amigos do presidente e naqueles que são adversários do presidente. Afinal de contas, a investigação séria, o combate à corrupção, o combate aos erros administrativos que alguém possa ter cometido não podem ter cor partidária, não podem ter coloração ideológica. O que precisa é que prevaleça a ética. E o PT é um partido muito grande, com quase um milhão de filiados, um partido espalhado. Se três, quatro, meia dúzia, dez, 15 ou 20 pessoas de uma organização política cometem erros não significa que o partido todo está cometendo o mesmo erro. O partido tomou as decisões, o partido tem uma nova direção e o partido sabe que vai ter que fazer um trabalho imenso para recuperar o prestígio, que ao longo dos anos conquistou junto à sociedade brasileira. Portanto, o partido tem consciência da gravidade do problema, tem consciência da “encalacrada” em que se meteu e tem consciência que somente a verdade é que vai poder dar ao partido, outra vez, a credibilidade que ele conquistou a duras penas nesse país.

Pedro Bial: Falando em verdade e mentira, o senhor já afirmou, nas seguintes palavras, que essa história do mensalão parece folclore do Congresso. Aí temos o relatório do deputado Ibrahim Abi-Ackel, que diz “houve recebimento de vantagens financeiras...”. O senhor me permita ler, porque está entre aspas: “Houve recebimento de vantagens financeiras indevidas por parlamentares e dirigentes partidários, com periodicidade variável, porém, constante, de 2003 e 2004”. E ele chegou a dizer “chame-se semanão, quinzenão ou mensalão”. O senhor ainda acredita que não passa de folclore?

Presidente Lula: Veja, Pedro. Primeiro, nós temos que esperar o relatório final das CPIs. Ou seja, nós temos que esperar o conjunto da obra que está sendo feita pelas CPIs, para que você possa, a partir de uma complementação de investigação da Polícia Federal – que, aliás, já investigou muito – e de uma complementação de atuação do Ministério Público, ter o veredicto final. Essas não são as primeiras CPIs e não serão as últimas CPIs no Brasil. E nós já tivemos outras dezenas de CPIs, em que os relatórios diziam coisas e que depois, na hora da apuração cientificamente feita pela Polícia Federal ou pelo Ministério Público e no julgamento pelo Poder Judiciário, as coisas não foram como estavam no relatório. Eu não posso fazer julgamento de relatório da CPI. Não posso. Primeiro, porque não é o papel do presidente da República. Segundo, porque não tenho conhecimento suficiente para analisar como tem um delegado de polícia, como tem um representante do Ministério Público ou como tem um ministro do Supremo Tribunal Federal. O que espero – e é a única coisa que peço a Deus todo dia – é que a investigação seja a mais séria possível; a apuração, a mais séria possível; e a punição, aquela mais séria que puder ser feita de acordo com o crime que cada pessoa envolvida comprometeu.

Pedro Bial: Posso deduzir da sua resposta, então, que o senhor não leu os relatórios parciais da CPI?

Presidente Lula: Nem poderia ler. O presidente da República tem informações dos relatórios pelos meus assessores, mas, estou esperando o relatório conclusivo da CPI, pois o que conta, na verdade, é quando tiver um relatório consagrado. Terminou a CPI, o relatório está pronto, vai ser encaminhado ao Ministério Público. A Polícia Federal e o Poder Judiciário vão entrar em ação. Aí sim, esse relatório é que vale para uma avaliação definitiva do presidente da República. Os relatórios parciais ainda vão passar por outras comissões, ainda vão ser julgados pela própria CPI. Aí, quando estiver pronto, tenho um documento final para poder fazer juízo de valores desse documento.

Pedro Bial: Acho que posso apresentar já algumas provas conclusivas para o senhor fazer um juízo de valor. Como, por exemplo, a auditoria feita pelo próprio Banco do Brasil sobre a questão do Visanet, em que dados conclusivos dessa auditoria comprovaram o desvio de R$ 20 milhões. Além disso, o uso de 80 mil notas falsas no valerioduto - assim chamado – foi comprovado pela Polícia Federal. Isso são provas.

Presidente Lula: Se a Polícia Federal está comprovando, significa que o governo, mais do que ninguém, está investigando, porque o maior interessado em investigar é o próprio governo. Segundo, tenho informações também do Banco do Brasil de que o pagamento adiantado era uma norma, que vinha acontecendo no Brasil há algum tempo. Não é uma coisa que foi implantada na atual gestão do Banco do Brasil, a partir do momento em que tomei posse. Era uma norma que já vinha sendo implantada e isso está no relatório do Banco do Brasil, me apresentado pelo presidente do Banco do Brasil. E que, portanto, agora, na medida em que há uma denúncia feita pelo relator ou pelo presidente da CPI, na medida em que tem investigação da Polícia Federal, na medida em que o Banco do Brasil prove se está errado ou não, os culpados serão punidos da forma mais severa possível.

Pedro Bial: O senhor me desculpe, mas, quando fala de normas que já vinham anteriormente sendo executadas, me lembra aquela frase da entrevista de Paris: que o caixa dois do PT era apenas uma prática sistemática da política brasileira e que o PT também fazia, o que surpreendeu muito o eleitor do PT, que acreditava que o PT tinha vindo para acabar com esse tipo de prática.

Presidente Lula: O PT cometeu um erro, que é de uma gravidade incomensurável. Todo mundo sabe - e sabe o PT hoje e sabe quem cometeu os erros – que o PT cometeu um erro e que será de difícil reparação pelo próprio PT. O PT vai sangrar muito para poder se colocar diante da sociedade outra vez com uma credibilidade, que ele conquistou ao longo de 20 anos.

Pedro Bial: O senhor acredita que ele vai recuperar essa credibilidade?

Presidente Lula: Vai! Vai recuperar.

Pedro Bial: Tem salvação?

Presidente Lula: Eu acho que tem salvação porque o PT é um partido muito grande. E numa família, quando alguém comete um erro qualquer, você não pune a família inteira. Vai ser punido quem cometeu o erro. E a legenda continuará com a mesma grandeza que fez política nesses últimos 20 anos. Segundo, se você for à Justiça Eleitoral, vai perceber a quantidade de milhares de processos que tem de denúncias de corrupção nesse País. Se você andar no Brasil em época de eleição, vai perceber que ao terminarem as eleições, na maioria dos municípios brasileiros, tem denúncia de corrupção contra quem ganhou, contra quem perdeu ou contra alguém. Isso é o que mais tem no Brasil. Alguns processos são apurados e as pessoas são punidas, outros não são apurados ou termina o mandato e não apurou nada porque a justiça tem dificuldade. Mas estou convencido de que em nenhum momento da história do Brasil teve um governo que colocasse o aparato do Estado brasileiro para fazer investigação como nós temos colocado. A Polícia Federal tem trabalhado, nesses 36 meses, o que não trabalhou em 20 anos. Tem investigado quadrilhas, lavagem de dinheiro, contrabando, tráfico, crime organizado e denúncia de corrupção dentro da própria Polícia Federal, afinal de contas, são dezenas de policiais punidos. E esse é um processo de depuração, que vai levar tempo. Você não tem uma varinha de condão para falar “apareçam os corruptos ou os malfeitores da pátria, que nós vamos punir”. Não. Você fica sabendo das coisas quando lê, quando alguém denuncia, quando alguém faz uma denúncia ou pelo menos um indício de prova. Aí você manda investigar. E, na investigação, você prova se é inocente ou não, se é culpado ou não.

Pedro Bial: Mas, até agora, o senhor vinha insistindo na tese de que não havia provas. Eu entendi bem ou o senhor hoje está reconhecendo que já há provas conclusivas do mensalão ou, enfim, de condutas irregulares e de corrupção conduzidas pelo PT?

Presidente Lula: O que eu disse textualmente é que o Zé Dirceu foi cassado e que não teve prova no processo de cassação do Zé Dirceu.

Pedro Bial: No episódio da compra do apartamento e do empréstimo para a mulher do José Dirceu, houve claros indícios de tráfico de influência.

Presidente Lula: Se há indícios, tem que ter uma investigação séria e quero que ela seja feita para o Zé Dirceu, como quero que ela seja para mim, como quero que ela seja feita para você. A investigação tem que ser feita com a maior seriedade. E, na hora em que tiver a investigação feita corretamente e o veredicto, aí você fala: “bom, esse cidadão cometeu uma heresia, por isso, tem que ser punido”. Isso vale para todos nós e não para um ou para outro. O que quero dizer é que o processo de julgamento do Zé Dirceu, a Câmara tem independência para fazer isso. Também não é a primeira vez e nem será a última que vai cassar alguém. A CPI vai ter - e, por isso, o relatório não está concluído ainda - que apresentar à nação brasileira um resultado que possa justificar todo o trabalho que fez até agora. E, para mim, se a CPI precisa de mais um mês, mais dois meses, mais outro mês, é um problema da CPI. Não é um problema meu. O meu papel, nesse momento, é cuidar deste País. O meu papel, nesse momento, é poder dizer ao povo brasileiro que a economia brasileira vai crescer, que nós vamos melhorar a distribuição de renda e que o Brasil vai ser muito melhor em 2006 do que foi em 2005, do que foi em 2004, do que foi em 2003. E de que o Brasil está conquistando a chance de ter um ciclo de desenvolvimento duradouro, que possa ser de dez ou 15 anos, para que a gente possa tirar o Brasil do eterno lugar de país emergente para colocar no rol dos países desenvolvidos. É para isso que estou trabalhando e acho até que a crise serviu para isso. Primeiro, para alertar a gente de que é preciso tomar mais cuidado. Segundo, é preciso fiscalizar mais. Terceiro, é preciso fortalecer as instituições. Quarto, é preciso exercer mais democracia e que a sociedade possa ter mais controle das ações do Poder Executivo, do Poder Legislativo. E nós estamos criando todos os instrumentos para isso. Eu tenho um ano de mandato e quero fazer com que ele seja exemplar para o Brasil, do ponto de vista das oportunidades que o país tem que ter a partir de 2006. Já foi bom em 2004? Foi bom. Há muito tempo que não se via o Brasil crescer como cresceu. Em 2005, tivemos um problema porque a inflação voltou, mas posso dizer que no quarto trimestre a economia já está crescendo e vai começar crescendo fortemente. Nós vamos ter um ano de crescimento acima da média nacional.

Pedro Bial: Mas, o senhor concorda que o governo, assim como as mulheres dos césares, além de ser honesto, tem que parecer honesto? O senhor há de convir que as aparências não estão ajudando. Vamos pegar, por exemplo, o caso da justificativa oficial do PT para a história dos empréstimos. Se o dono de uma empresa muito próspera, com muitos funcionários, com lucros, enfim, for a um banco pedir um empréstimo sem apresentar garantias, ele sai sem um tostão. Como é que o PT - que não tem renda, é um partido – conseguiu esse dinheirão todo apenas com a assinatura de um simples tesoureiro, do nosso Delúbio, como o senhor disse?

Presidente Lula: Eu não sei como conseguiu. O dado concreto é que nós vamos descobrir como conseguiu. Ou a Polícia Federal vai descobrir, ou o Ministério Público, ou a CPI já descobriu uma parte, ou no processo que vai ter no Poder Judiciário.

Pedro Bial: Mas, não é uma dedução lógica de que são empréstimos de fachada?

Presidente Lula: Eu não posso fazer dedução. Qualquer cidadão comum pode fazer essa dedução. Eu não posso fazer. Eu baseio a minha vida em achar que todo mundo é inocente, até que se prove o contrário. Então, todo mundo merece a chance de ser inocente até que se investigue e que se prove que ele é culpado. Ao presidente da República, não cabe fazer pré-julgamento. E não cabe ficar dizendo que a pessoa é inocente ou culpada previamente. Tudo o que está sob investigação, no que depender do governo, da Polícia Federal, de ações administrativas, será feito a ferro e fogo. Tudo aquilo que depender do Ministério Público tem autonomia para fazer e o Poder Judiciário. Depois desse processo todo é que todos nós - você, eu e quem está nos assistindo - vamos poder dizer “é verdade ou não era verdade”. Com relação à minha pessoa, a única coisa que peço a Deus é que, quando terminar tudo isso, aqueles que me acusaram peçam desculpas. Só peço isso, não quero nada mais do que isso. Peçam desculpas. Porque também a leviandade, tal como é feita muitas vezes, ela tem um preço. E acho que é errado fazer qualquer julgamento precipitado da pessoa, dizer que a ela vai ser a melhor ou ser a pior em campo, antes do jogo começar.

Pedro Bial: Quando soube que iria ter o privilégio de conversar com o senhor, saí conversando muito com o povão mesmo em feira-livre, táxi, botequim. A sensação não é de acusação ao senhor, mas, de estar muito intrigado. Como é que o presidente não sabia? Essa pergunta continua sendo feita, presidente. O senhor sabia ou não sabia?

Presidente Lula: Só tem três hipóteses de você saber das coisas. Você está comigo, aqui no terceiro andar, e tem gente trabalhando no quarto andar, tem gente trabalhando no segundo, tem gente trabalhando nos ministérios. Nem eu e nem você sabemos o que está acontecendo. Então, como é que você sabe? Quando participa da reunião, quando alguém que participou conta ou quando sai uma denúncia.

Pedro Bial: Mas, o Delúbio era tão próximo do senhor...

Presidente Lula: O que é importante não é se você sabia ou não, porque se eu tivesse condições de saber, não teria acontecido. Esse é o dado concreto. Se eu tivesse condições de saber, não teria acontecido. Na medida em que soube, naquilo que diz respeito ao presidente da República, todas as providências foram tomadas. Foi afastado quem deveria ser afastado, foi punido quem deveria ser punido. Agora, a justiça faça a sua parte. E, no caso do PT, o partido fez a sua parte. Não adianta querer que as coisas aconteçam antes do tempo que têm que acontecer. Eu quero que seja assim para mim, desejo que seja assim para você e para todo o povo brasileiro. Na hora que sobre qualquer cidadão brasileiro pesar qualquer suspeita, quero que ele tenha o direito. Antes de ser condenado à forca, que ele possa ser julgado corretamente para que a gente não absolva um culpado e nem para que a gente condene um inocente.

Pedro Bial: O senhor já se disse traído e depois se solidarizou com aqueles que estavam envolvidos na corrupção, se reunindo com eles. Afinal, o senhor foi traído ou é solidário? Por exemplo, o José Dirceu o traiu?

¬Presidente Lula: Eu me considero traído por duas coisas. Eu dediquei parte da minha vida para construir esse partido. Eu, a minha mulher e as minhas crianças – elas dormiam na calçada para ajudar a construir esse partido. E não era uma vez. Eram muitas vezes. Dormiam na calçada, vendendo camiseta, fazendo filiação. E a gente criou o partido exatamente para mudar a forma de se fazer política nesse País. Então, me sinto traído porque alguns companheiros meus fizeram práticas...

Pedro Bial: José Dirceu o traiu?

Presidente Lula: Fizeram práticas, sabe, que não condiziam com aquilo que era a história do PT. No caso do Zé Dirceu - diferentemente do Delúbio, que assumiu a responsabilidade -, ele ainda não definiu seu processo. Ele foi cassado, vai ter o relatório da CPI, vamos aguardar para ver o que vai acontecer. Mas, não quero nem julgar se eu fui traído por A ou por B. Acho que o conjunto dos acontecimentos, para mim, soou como se fosse uma facada nas costas de alguém, que junto com outros milhões de brasileiros, dedicou parte da sua vida para construir um instrumento político, que pudesse ser diferente de tudo o que estava aí.

Pedro Bial: Porém, antes mesmo dessas investigações serem concluídas, o senhor afirmou que levaria José Dirceu ao seu palanque.

Presidente Lula: Eu fui perguntado se o Zé Dirceu ia no palanque. Todas as pessoas, enquanto não forem julgadas, são inocentes. Vamos aguardar o processo. Da parte do presidente da República, nesse momento, seja com os meus companheiros ou com os meus adversários, tem que ter sempre a postura de um estadista, que não faz julgamento a priori, que não faz julgamento precipitado, que não condena e nem absolve ninguém antes do tempo. Eu só lamento profundamente que toda essa crise impediu que as coisas boas que o governo fez não aparecessem com o destaque que deveriam aparecer na imprensa. Lamento profundamente, porque o que nós fizemos nesse Brasil, no ano de 2005 - não precisa pegar 2004, não - do ponto de vista da geração de empregos, do aumento de salário dos mais pobres nesse País, dos acordos salariais. Por exemplo, 85% dos sindicatos que fizeram acordo em 85 fizeram acordos ou a inflação ou acima da inflação. Há 20 anos que isso não acontecia no Brasil. Segundo, a geração de empregos. Nós tivemos 20 anos de estagnação na economia brasileira. Nesses 36 meses, tivemos 3.709.000 empregos de carteira profissional assinada e, segundo o IBGE, criamos 3,8 milhões. Numa demonstração de que, apesar de tudo que aconteceu, a economia brasileira está caminhando, o Brasil está sólido e as coisas vão ser muito melhores em 2006.

Pedro Bial: Presidente, o ex-ministro José Dirceu, desculpe-me insistir nesse nome, afirmou que as direitas e a oposição querem prolongar a crise política para inviabilizar a sua reeleição. O senhor será candidato à reeleição para contrariar essa versão?

Presidente Lula: A minha preocupação, nesse instante, não é com reeleição. A minha preocupação é que tenho um ano para governar o País, tenho muita coisa para fazer no Brasil nesse ano e não estou nem um pouco preocupado com o problema eleitoral. Se na hora em que for decidir, lá para o meio do ano, chegar à conclusão que posso ser candidato porque interessa às forças políticas que me apóiam, também não tenho nenhum problema.

Pedro Bial: O meio do ano não é tarde demais para começar uma campanha?

Presidente Lula: Eu não tenho pressa. Quem tem pressa são os meus adversários. Eu tenho que governar o Brasil até o dia 31 de dezembro e tenho muita coisa para fazer e muita coisa para colher, porque você sabe que é assim: você planta, rega e um belo dia começa a colher.

Pedro Bial: Colher em ano eleitoral é ótimo, não é?

Presidente Lula: Não. Você colhe no tempo que dá. Eu não escolho o tempo em que posso colher. Quando você começa uma obra em 2003, não a termina em 2003. Quando você começa uma hidrelétrica, demora cinco, seis anos para colher. Quando você começa uma ferrovia, demora para colher. Quando você começa a plantar no tempo certo, colhe no tempo certo. Algumas coisas nós colhemos, outras não. Eu vou dar um exemplo para você. Na política social, nós já colhemos muita coisa e temos muito para colher. Nós pegamos o governo com R$ 7 bilhões em política social. Este ano de 2005, terminamos com R$ 17 bilhões e, para 2006, serão R$ 22 bilhões investidos em política social. É por isso que o estudo do IBGE divulgado pela Pnad dá que, pela primeira vez na história, os mais pobres tiveram um ganho como não tinham há muito tempo. E, embora o salário não tenha crescido tanto quanto eu gostaria que crescesse, a verdade é que é o momento em que ele mais cresce na história do Brasil. Depois, três milhões de pessoas, que viviam abaixo da linha da pobreza, deixaram de viver abaixo da linha da pobreza. Então, nós vamos fortalecer mais a política social. Esse é um dado de uma coisa que nós estamos colhendo. Outra coisa que nós vamos colher é o nosso programa de investimento em Educação. Nós estamos construindo quatro universidades federais novas, estamos transformando cinco faculdades em universidades, estamos fazendo 32 extensões de Universidades Federais para o interior do país, estamos levando uma universidade para o ABC, estamos levando para Diadema, levando para Sorocaba, estamos levando para o Nordeste e para o Norte inteiro, que é para o Brasil começar a pensar que deve ser um grande exportador de inteligência e de conhecimento, não apenas de produto manufaturado ou matéria-prima. E, depois, nós também vamos colher, porque este ano já estarão prontas 25 novas escolas técnicas de formação profissional, coisa que há muito tempo não se fazia no Brasil. Então, por que não vou colher as coisas que plantamos? Nós vamos colher e quero, como presidente da República, ir aos locais em que fui anunciar o que ia fazer para colher agora o que plantei.

Pedro Bial: Para encerrar esse tema de ano eleitoral, no dia 10 de outubro de 2005, no dia em que o falou em urucubaca, o senhor disse também “agora, é a gente não permitir que o processo eleitoral do ano que vem venha exigir que governantes tomem medidas irresponsáveis e populistas”. Presidente, essa declaração, na voz de um governante, soa como uma ameaça.

Presidente Lula: Por que faço isso? Porque defendo a tese histórica de que um dos problemas que faz o Brasil não dar certo é que o país é pensado apenas de quatro em quatro anos. O cidadão toma posse e, ao invés de se preocupar em governar, começa a pensar na próxima eleição. Então, tudo o que faz é pensando na próxima eleição.

Pedro Bial: Então, o senhor é contra a reeleição?

Presidente Lula: Eu fui contra a reeleição, votei contra.

¬Pedro Bial: E se mantém?

Presidente Lula: Eu fui contra. Eu gostaria que não tivesse. Eu acho que, para o Brasil, um sistema bom seria que você não tivesse reeleição, mas sim, um mandato de cinco anos, que já tivemos. Aliás, em 1994, derrubaram pensando que eu ia ganhar. Com medo de que eu ganhasse as eleições, eles reduziram o mandato. E, depois que não ganhei, eles aprovaram a reeleição. Então, gostaria que o Brasil não tivesse reeleição, mas um mandato de cinco anos para que o presidente eleito tivesse a preocupação única de governar e não de pensar na sua própria reeleição. É assim que acho que o Brasil pode dar certo. Por isso que disse que não haverá nenhuma medida irresponsável. Por quê? Porque o Brasil historicamente estava caminhando para dar certo quando vieram as eleições. Aí meteram os pés pelas mãos e não deu certo. Você quer pegar um exemplo? A reeleição de 1996. O Brasil estava num momento bom. Se não fosse a...

Pedro Bial: Em 1998, o senhor diz...

Presidente Lula: Não, em 1996, quando foi aprovada a tese da reeleição.

Pedro Bial: Ah, sim...

Presidente Lula: Em 1996, se não tivesse sido aprovado, o Brasil teria outro presidente, que certamente ia fazer muito mais do que fez o presidente no segundo mandato dele. E o Brasil teria seguido o seu rito democrático normal. Nós tivemos momento em que a economia parecia que ia crescer e as pessoas têm medo de aumentar juros, têm medo de fazer isso, têm medo de fazer aquilo. Não faz por conta das eleições ou faz em medida populista para ganhar o voto. O que digo: eu não vou fazer. Muito mais do que o mandato, tenho uma história, tenho uma biografia e tenho uma lista de dias de vida de comportamento. Portanto, estou seguro de que o que nós estamos fazendo para economia brasileira é um bem incomensurável para os meus filhos, para os meus netos, para os seus filhos, para os seus netos. E o que quero? Eu quero é que eles colham um país sólido. Por isso, hoje a gente não precisa mais discutir estabilidade porque ela está consagrada; não precisamos mais ficar discutindo inflação porque provamos que temos coragem de controlá-la e fazemos o que for necessário para controlar. Sabe por quê? Porque controlar a inflação significa mais comida na mesa do trabalhador e mais salário no bolso de quem vive de salário nesse país. E nós sabemos que fazendo isso vamos passar para o Brasil e para o mundo inteiro a confiança necessária para que o país continue crescendo.

Pedro Bial: Mas, ainda há a sensação no senso comum de que a economia brasileira é um cavalo doido para galopar e com as rédeas de uma legislação trabalhista ultrapassada, de um sistema tributário punitivo. Quero dizer, a crise em 2005 emperrou as reformas. Agora, tem um ano eleitoral. O senhor acha que, durante um ano eleitoral, pode fazer as reformas trabalhista, sindical, tributária? O senhor tem esse objetivo?

Presidente Lula: Não pode. Deixa eu lhe contar: cumpri a minha parte. Nós criamos um Fórum Nacional do Trabalho em que participaram empresários, trabalhadores e o governo. Apresentamos uma proposta, que está no Congresso Nacional. Eu não posso bater escanteio e marcar o gol ao mesmo tempo. Eu enviei o meu processo ao Congresso Nacional, que espero que vote. A reforma trabalhista, acho que precisa ser feita da forma mais madura possível para que a gente possa adequar o Brasil ao século XXI. Agora, ela não pode ser uma imposição de um grupo sobre outro. Ela tem que ser um acordo, em que leve em conta as necessidades do Brasil. É para isso que nós trabalhamos. E por isso que digo que não haverá medida populista, que não tomarei nenhuma atitude que signifique “ah, o presidente está fazendo isso aí por causa da eleição”. Eu vou fazer o que tem que ser feito no Brasil. O país se consolidou e é isso que peço que o povo brasileiro acredite. A maior prova de que o Brasil consolidou a sua política de estabilidade e consolidou uma perspectiva de crescimento de longo prazo foi a decisão nossa de dizer para o FMI “não queremos mais o seu dinheiro e não precisamos de um acordo, sem fazer nenhum alarde, porque agora nós somos senhores dos nossos problemas e senhores das nossas soluções”. Isso é que me dá certeza de olhar nos seus olhos e dizer “Pedro, a economia brasileira vai bem, ela vai crescer”. Obviamente que todo mundo que está na oposição quer mais. Todo mundo que não está no governo fala em crescimento maior. E quando passaram pelo governo não fizeram. Então, digo sempre o seguinte: esperem terminar o meu mandato para me julgar. Afinal de contas, tenho mais 12 meses de mandato e quero poder fazer comparar os meus números com os números de todos os que passaram por aqui. Alguns vou perder, outros vou ganhar. Mas, me permita pelo menos fazer essa comparação, pelo menos discutir as coisas que considere essenciais para o Brasil. Só isso que quero. E, ainda em 2006, para nossa alegria, a Petrobras vai ter auto-suficiência do petróleo, que vai consagrar os nossos sonhos. Você, não sei se era nascido, mas eu já tinha nove anos de idade do...

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Presidente Lula: ...do “Petróleo é nosso”. Quer dizer, nós vamos consagrar isso. E agora acabou de descobrir um poço grande, que vai nos dar mais garantia. E estamos fazendo algumas coisas estruturantes para o Brasil, que são necessárias. A refinaria do Nordeste brasileira; o gasoduto de Coari-Manaus, no estado do Amazonas; a ferrovia Transnordestina ligando o porto de Pecém, no Ceará, ao porto de Suape, em Recife, passando por Eliseu Martins, no Piauí; o programa do biodiesel, que é a grande revolução da nova matriz energética brasileira. Daqui a uns 30 anos, o seu filho e o meu filho vão se encontrar por aí e falar “puxa vida, mas teve um tempo em que alguém pensou em fazer o biodiesel”, que será a nova matriz energética e que ninguém conseguirá competir com o Brasil. E, portanto, para atender o cumprimento do protocolo de Kyoto, o Brasil vai estar numa situação altamente confortável em relação aos outros países.

Pedro Bial: Presidente, uma última pergunta. Hoje é dia 01 de janeiro de 2006. Onde é que o senhor deseja estar em 01 de janeiro de 2007?

Presidente Lula: No Brasil, em primeiro lugar. Sabe, tem muita coisa para acontecer. Eu, como disse agora há pouco, não defini se sou candidato, não tenho pressa de definir. Vai depender de muitas conversas com os partidos, de muita conversa com gente da sociedade. Você sabe que tenho uma tese sobre a reeleição. Se eu decidir ser candidato, obviamente que vou decidir ser candidato, vou comunicar à nação brasileira. Se eu decidir que não sou, ou estarei tomando posse ou estarei passando a faixa para alguém que ganhou as eleições. A única coisa de que tenho certeza de dizer é que 2006 será o ano do povo brasileiro, porque está tudo engatilhado, está tudo preparado, está tudo armado para que o Brasil tenha um forte crescimento, uma forte distribuição de renda, muito emprego para esse povo e, quem sabe, vamos juntos construir o Brasil que sonhamos há muito tempo construir.

Pedro Bial: Muito obrigado, presidente.

Presidente: Obrigado a você.

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